"(...) A liberdade supõe, ao mesmo tempo, a capacidade cerebral ou intelectual de conceber e fazer escolhas, e a possibilidade de operar essas escolhas dentro do meio exterior. Sem dúvida, há casos em que se pode perder toda a liberdade exterior, estar numa prisão, mas conservar a liberdade intelectual.O sujeito, pode, eventualmente, dispor de liberdade e exercer liberdades. Mas existe toda uma parte do sujeito que não é apenas dependente, mas submissa. E, de resto, não sabemos realmente quando somos livres."
Edgar Morin
(In "A cabeça bem-feita")
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
Um Pouco de Poesia...
Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Ficções do Interlúdio
teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
brilha, porque alta vive.
Ricardo Reis (Fernando Pessoa)
Ficções do Interlúdio
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Como nasce um paradigma

"É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO".
Albert Einstein
Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de um tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Medo - A Arma da Política
Inicialmente, gostaria de agradecer ao Prof. Bido pela oportunidade de participar da autoria deste blog. Depois, gostaria de acrescentar que me coloco à disposição para ajudar no desenvolvimento do mesmo.
Durante a leitura da obra de Zygmunt Bauman, intitulada "Tempos Líquidos", tornou-se obvio que a questão política, não só em nosso país, mas também em todo o mundo está comprometida em seu âmbito estrutural. Neste livro, Bauman aponta que o medo é uma marca constante em nossa sociedade, uma vez que o enfraquecimento das relações humanas e a degradação do convívio social por meio do capitalismo, (que enfatiza a competição, e não a cooperação) acabaram por tornar o indivíduo, um ser receoso com relação ao meio que o cerca. Este medo, ampliado à proporções globais, cria "sociedades defendidas" presas em seu suposto "bem estar", mas na verdade, acuadas pela própria sombra.
Assim, frente a uma sociedade descrente e sem esperança, torna-se obvio que a política não tem mais poder. A representação de um país por meio de um governo só sustenta-se à medida em que seu poder é reforçado pela vontade das massas (algo raro em nosso meio). Assim sendo, um governo sem poder perde também seus meios de controle. Só resta um no qual se apoiar: a manipulação do medo.
Uma vez que o governo não pode mais ser visto como útil, tenta mostrar-se então como "necessário para a sobrevivência da nação". Ainda segundo Bauman, ameaças de terrorismo, ondas freqüentes de imigrantes, doenças, tudo não passa de uma imagem exacerbada dos problemas reais, de modo a promover para este governo, uma imagem de "pai protetor", indispensável para que os pobres habitantes da cidade possam sentir-se seguros.
Ainda na mesma perspectiva, mas ampliando-a a nível global, o autor afirma que o governo é o maior colaborador para o desenvolvimento do problema em si. A organização terrorista Al Qaeda nem mesmo era provida de um nome antes do atentado ocorrido no dia 11 de setembro. Porém, após tal evento, a mídia e o governo, em uma "união em prol da segurança nacional" continuaram a divulgar incessantemente imagens vinculadas à supostas ações terroristas, suspeitas de atentados com artefatos explosivos e envenenamento em massa. Então, torna-se impressionante o fato de que 2 anos antes do atentado, pouco se sabia sobre a organização, enquanto que 2 anos depois, seu nome (agora criado) passa a se espalhar rapidamente por todo o mundo. Estaria então o governo de fato combatendo o terrorismo, ou divulgando suas realizações? Estaria minando seu esforços, ou maximizando seus feitos?
Diante desta questão, também fica claro que um governo que controla uma população sufocada pelo próprio medo, não se sentira receoso de tripudiar sobre a situação. Logo, corrupção, escândalos e frases de baixo calão tornam-se a norma. Logo, não resta muito a esperar, pois o grande "pai protetor" é sagaz, e prefere manter seus "filhos" ignorantes quanto a esta situação. A emoção logo, torna-se arma, e o medo impera, para deleite dos que governam.
Acrescento então uma frase de Bauman, de seu livro Amor Líquido, que faz menção à estas questões:
"Aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade" (2004)
Para saber mais:
Livros do mesmo autor
Amor Líquido
Medo Líquido
Tempos Líquidos
Durante a leitura da obra de Zygmunt Bauman, intitulada "Tempos Líquidos", tornou-se obvio que a questão política, não só em nosso país, mas também em todo o mundo está comprometida em seu âmbito estrutural. Neste livro, Bauman aponta que o medo é uma marca constante em nossa sociedade, uma vez que o enfraquecimento das relações humanas e a degradação do convívio social por meio do capitalismo, (que enfatiza a competição, e não a cooperação) acabaram por tornar o indivíduo, um ser receoso com relação ao meio que o cerca. Este medo, ampliado à proporções globais, cria "sociedades defendidas" presas em seu suposto "bem estar", mas na verdade, acuadas pela própria sombra.
Assim, frente a uma sociedade descrente e sem esperança, torna-se obvio que a política não tem mais poder. A representação de um país por meio de um governo só sustenta-se à medida em que seu poder é reforçado pela vontade das massas (algo raro em nosso meio). Assim sendo, um governo sem poder perde também seus meios de controle. Só resta um no qual se apoiar: a manipulação do medo.
Uma vez que o governo não pode mais ser visto como útil, tenta mostrar-se então como "necessário para a sobrevivência da nação". Ainda segundo Bauman, ameaças de terrorismo, ondas freqüentes de imigrantes, doenças, tudo não passa de uma imagem exacerbada dos problemas reais, de modo a promover para este governo, uma imagem de "pai protetor", indispensável para que os pobres habitantes da cidade possam sentir-se seguros.
Ainda na mesma perspectiva, mas ampliando-a a nível global, o autor afirma que o governo é o maior colaborador para o desenvolvimento do problema em si. A organização terrorista Al Qaeda nem mesmo era provida de um nome antes do atentado ocorrido no dia 11 de setembro. Porém, após tal evento, a mídia e o governo, em uma "união em prol da segurança nacional" continuaram a divulgar incessantemente imagens vinculadas à supostas ações terroristas, suspeitas de atentados com artefatos explosivos e envenenamento em massa. Então, torna-se impressionante o fato de que 2 anos antes do atentado, pouco se sabia sobre a organização, enquanto que 2 anos depois, seu nome (agora criado) passa a se espalhar rapidamente por todo o mundo. Estaria então o governo de fato combatendo o terrorismo, ou divulgando suas realizações? Estaria minando seu esforços, ou maximizando seus feitos?
Diante desta questão, também fica claro que um governo que controla uma população sufocada pelo próprio medo, não se sentira receoso de tripudiar sobre a situação. Logo, corrupção, escândalos e frases de baixo calão tornam-se a norma. Logo, não resta muito a esperar, pois o grande "pai protetor" é sagaz, e prefere manter seus "filhos" ignorantes quanto a esta situação. A emoção logo, torna-se arma, e o medo impera, para deleite dos que governam.
Acrescento então uma frase de Bauman, de seu livro Amor Líquido, que faz menção à estas questões:
"Aquele que busca a sobrevivência assassinando a humanidade de outros seres humanos sobrevive à morte de sua própria humanidade" (2004)
Para saber mais:
Livros do mesmo autor
Amor Líquido
Medo Líquido
Tempos Líquidos
Sobre a percepção e a física quântica
O materialismo moderno tira das pessoas a necessidade de se sentirem responsáveis, assim como a religião! Mas eu acho que se você levar a Mecânica Quântica a sério, verá que ela coloca a responsabilidade nas nossas mãos e não dá respostas claras e reconfortantes. Ela só diz que o mundo é muito grande e cheio de mistérios.O mecanismo não é a resposta, mas não vou dizer qual é, pois vocês têm idade suficiente para tomarem suas decisões.Por que continuamos recriando a mesma realidade?Por que continuamos tendo os mesmos relacionamentos?Por que continuamos tendo os mesmos empregos repetidamente?Nesse mar infinito de possibilidades que existem à nossa volta, por que continuamos recriando as mesmas realidades?Não é incrível existirem opções e potenciais que desconhecemos?É possível estarmos tão condicionados à nossa rotina, tão condicionados à forma como criam nossas vidas, que compramos a idéia de que não temos controle algum?
Para continuar a ler clique no link para o texto "Quem somos Nós?"
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Sobre a culpa

Numa aula recente falamos sobre liberdade e culpa. Veja abaixo um texto sobre o assunto:
(Clique sobre a imagem para vê-la em movimento)
Outras idéias - Michael Kepp
Uma emoção inútil
[...] A GENTE SE CULPA POR PERDER OPORTUNIDADES MESMO QUE, NA ÉPOCA, NÃO TIVESSE ESCOLHA; ISSO NÃO TORNA O ARREPENDIMENTO UMA EMOÇÃO INÚTIL?
Quem não se arrepende de nada? Algumas celebridades citam a música de Edith Piaf ("Non, Je ne Regrette Rien") para parecerem bem resolvidas ou porque sobreviveram a suas decisões erradas. Mas a maioria se arrepende do leite que derramou ou, muito mais comum, que nem conseguiu beber. A gente se culpa por perder oportunidades, mesmo que, na época, não tivesse outra escolha. Isso não torna o arrependimento uma emoção inútil? O taxista se arrepende de não ter feito faculdade apesar de, quando jovem e favelado, não ter tido os meios nem a família que o empurrassem até o objetivo. A suburbana se arrepende de não ter casado com o fazendeiro milionário apesar de, quando adolescente na roça, não ter tido coragem para desobedecer à família que a proibiu. A diretora e roteirista americana Nora Ephron escreveu que se arrepende de não ter, quando jovem, apreciado seu então gracioso pescoço, que envelheceu mal e mais rápido que seu rosto. Mas que jovem admira o próprio pescoço, imaginando como ficará em 50 anos? À medida que envelhecemos, nossos arrependimentos, como nossos pescoços, podem assumir uma forma mais definitiva e desagradável. Günter Grass, o maior autor alemão vivo, abalou a terra natal com sua recente autobiografia, revelando-se arrependido de ter pertencido à infame força de elite de Hitler, a Waffen-SS. Justificou o momento da confissão dizendo que só agora, na velhice, encontrou "a forma para discutir o assunto em um contexto mais amplo". O arrependimento que nasce de todas as chances perdidas é filho da conveniência de um dado momento, ou da falta dela. O que lamentamos não é deixar uma oportunidade de ouro passar, mas simplesmente não estar preparado para aproveitá-la na hora. Nos meus primeiros meses na faculdade, três amigos me imploraram para ir ao que me prometeram ser um piquenique erótico com quatro meninas desinibidas, que haviam acabado de parar na frente do nosso prédio em dois conversíveis. Precisavam de mais um para formar os casais. Eu disse "não" porque tinha que estudar para a prova do dia seguinte. Quando chegaram em casa à noite com sorrisos enormes no rosto, já que o piquenique tinha virado suruba, me xinguei por não ter ido e jurei que não perderia outra dessas, que nunca mais me bateu à porta. Analisando agora, me arrependo não de ter perdido o piquenique, mas de ser virgem quando fui convidado. Não pude aproveitar porque tremia nas bases ao pensar em perder a virgindade na companhia de três homens e mais de uma mulher. Quando nos damos conta do que tínhamos -seja um lindo pescoço ou uma oportunidade erótica, educacional ou matrimonial-, já não é mais nosso para aproveitar. Ainda assim, lamentamos a perda. Grass chamou sua autobiografia de "Descascando a Cebola", porque refletir sobre o próprio passado é uma descoberta que ocorre ao longo do tempo, camada por camada, e produz lágrimas. Mas por que lamentar uma vida que não atingiu a plenitude que esperávamos se percebermos depois que não poderíamos, ou nem queríamos, tê-la vivido de outro modo?
MICHAEL KEPP , jornalista norte-americano radicado há 25 anos no Brasil, é autor do livro de crônicas "Sonhando com Sotaque - Confissões e Desabafos de um Gringo Brasileiro" (ed. Record) www.michaelkepp.com.br
Sobre o filme "Tropa de Elite"

CONTARDO CALLIGARIS
"Nóis goza", mas "nóis sofre" de culpa: somos desculpados de nossa inércia pela culpa
NA SEXTA passada, "Tropa de Elite", de José Padilha, estreou em São Paulo e no Rio; amanhã, entrará em cartaz no resto do país. O filme é inspirado no livro "Elite da Tropa" (Objetiva), de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (os dois últimos são policiais).Padilha nos apresenta um momento de crise na vida do capitão Nascimento (o ótimo Wagner Moura), do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio. Além do combate entre as forças da ordem e os bandidos do tráfico, há quatro eixos de tensão: a oposição entre o Bope (um pequeno corpo de incorruptíveis treinados para a guerra) e um sistema policial inepto e corrupto; o conflito entre a vida de família do capitão, que vai ser pai, e, do outro lado, a brutalidade de sua tarefa; a luta do capitão contra o desgaste e os efeitos traumáticos de seu dia-a-dia; o embate entre a polícia e os próprios cidadãos de quem ela deveria defender a vida, a tranqüilidade e as posses. Para cada um desses eixos, qualquer cinéfilo poderia evocar vários filmes memoráveis, sobretudo americanos. Mas o embate entre a polícia e os cidadãos que ela defende revela, no filme de Padilha, uma especificidade nacional: nas classes privilegiadas e supostamente "ordeiras", a simpatia pelo crime e a antipatia pela polícia não são efeito, como de costume, de rebeldia e sede de aventuras. Elas nascem de um forte e difuso sentimento de culpa social ou, no mínimo, justificam-se por ele. Mas vamos com calma. Em "Tropa de Elite", o cineasta José Padilha conseguiu, de maneira admirável, suspender o julgamento e apresentar nossa "guerra" cotidiana como um incômodo dilema moral, sem tomar partido. Para alguns, essa suspensão do julgamento valeu como uma negação da culpa social que, aparentemente, segundo eles, deveria orientar nossa compreensão do mundo. Com isso, o filme foi acusado de "idealizar" o Bope e de fazer uma apologia "fascista" do "Estado policial" e da tortura instituída. Essas críticas são descabidas, mas resta a pergunta: será que não é perigoso calar nossa culpa social? Será que a culpa diante da injustiça não é justamente o que nos levaria a entendê-la melhor e a agir? Pois é, nada disso. Respondo: 1) Em regra, a culpa não produz ação, mas descarrego. Funciona da seguinte maneira: somos autorizados a fazer pouco ou nada para que a situação mude porque o sofrimento de nossa consciência nos absolve. Inversão da frase de José Simão: "nóis goza" de muitos privilégios, mas "nóis sofre" de muita culpa. Somos desculpados de nossa inércia pela culpa que sentimos. 2) Também em regra, a culpa é péssima conselheira. Ela induz a acreditar numa contabilidade estapafúrdia, pela qual há cidadãos que devem e outros aos quais é devido, sem a mediação de lei alguma. Assim, Ferréz, na Folha da segunda passada, pode achar que o relógio roubado de Luciano Huck "paga" a miséria de seus assaltantes. Ele se expressa como se a lei não fosse (não devesse ser) a referência comum para todos: o problema não é que assaltar é crime, Huck é culpado e devedor, e o "correria" cobra o devido. Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade, sonegar, saquear o bem público, pagar salários de esmola e por aí vai. Em agosto, uma versão inacabada de "Tropa de Elite" foi distribuída ilegalmente em DVD, de camelô em camelô, pelo país afora. Nessa ocasião, houve vozes para justificar a pirataria e racionalizar um desrespeito endêmico à lei. Havia o estilo "eu não serei o único otário", que, grosso modo, diz assim: "Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata". E havia o estilo "está na hora de mudar", em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime. Pois bem, quando a culpa organiza nossa visão do mundo, tudo é permitido, assaltar de moto, a pé, de carro ou de colarinho branco. Se você quiser passar uma hora e meia com o coração na mão e se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca "Tropa de Elite".
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